Este é o sol que me ilumina, que me faz confidente da minha própria sombra, seguindo os meus passos, caminhando por entre os mais sinuosos trilhos desta floresta da vida.
Na água do seu rio saciei a minha sede e junto do seu leito, perco-me no seu deslumbrante silêncio.
Límpidas são tuas águas que adormecem os meus olhos, e numa dança audaz teus peixes rompem a pureza das tuas águas para sentir a frescura do teu ar.
É este ar que respiro que me leva para além do teu céu, onde as aves numa dança sibilante desenham em círculos harmoniosamente a sua liberdade.
Quantas vezes fixei o azul do teu céu que se perde onde jamais a minha vista poderá alcançar, e se mistura com a luz radiante dos intensos raios de sol. Que contemplam as nuvens e beijam a tua terra vestida com mantos verdes bordados a pérolas vivas.
Sem serem alheias a tão grande e contagiante liberdade as crianças rebolam por entre o verde vivo dos teus campos e o vermelho garrido das tuas exuberantes papoilas.
Gritos soltos de alegria, como quem tem todo o tempo do mundo e vive cada momento com mais intensidade que viveu as ultimas fantasias, as brincadeiras em tom improvisado. Donas do seu mundo enchem de vida o coração mais insensível e indiferente. Na esperança desta alegria não mais acabar, tudo se transforma em encanto, com a inconsciência imparcial de mentes livres e distanciadas da dor do mundo ou do homem.
Inspiro compassadamente, tirando o máximo prazer do que é naturalmente belo e maravilhoso, perdido em esquecimento de momentos singulares que se cravam como as inscrições numa pedra de altar.
E reviver a mistura de essências, compactadas algures no baú interior de recordações, e se deixam fluir sem esforço na passividade do momento.
Quebrar o infinito, tornar presente o passado, viver, tal como a água que corre, e já não volta atrás.
O medo cessou, estou de novo a sentir a ternura do desejo, possuído pelo mais leve perfume do aroma do campo. De entre os esverdeados ramos das tuas árvores, raios de sol penetram, irrompendo aleatoriamente em todas as direcções, iluminando alguns palmos de terra dragados por pequenas formigas que se alinham, enfileiradas por entre minúsculas passagens repletas de obstáculos contornados de uma forma engenhosamente natural.
Num ramo mais alto ofuscado pelo sol, um rouxinol engalanado, semeia um cantar repuxado que ecoa da mais insignificante flor até aos distantes e impenetráveis castanheiros que se deslumbram lá longe na paisagem.
Na copa das árvores desdenha-se um movimento sibilante que anuncia um vento convidado sem honra, as crianças abrandam o seu frenesim e regressam à cumplicidade dos seus lares.
Uma brisa mais pesada abate-se sobre o vale e de repente me faz rosar a face, convidando agora a noite a tomar o seu lugar, acalmia, funde-se numa áurea de mistério, transformando outrora sombras cinzentas empalidecidas com a luz vibrante do sol, por um fosco escurecido que aceleradamente se mistura em tons de negro, desprovido de silhuetas definidas mais ao longe.
Adiante ainda se distingue uma luz enfraquecida provávelmente por entre vidros amarelados corroídos pelo tempo, de alguma velha casa perdida entre os montes onde a vista se esforça em focar.
No curso do rio parece agora haver uma linguagem de um ensurdecedor silêncio, recatado na pacatez da noite, as suas pedras lisas e desgastadas deixadas ao acaso pela fúria das águas, são agora cobertas com a mais lisa camada de seda pregada num reflexo de p#@£§"#$%!!!, escutam-se baixinho burburinhos trazidos pelas insignificantes bolhinhas de ar que submergem e carinhosamente vem rebentar na pacata superfície, realçando a vida adormecida no fundo, submersa de histórias e encantos que se vão rasgando por entre os mais impenetráveis vales e montes em busca de poder abraçar o mar.
H.A. 01.11.2005
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